Comportamento
05/08/2016 3 min de leitura

Ciberbullying não é brincadeira de criança

“Na brincadeira todo mundo se diverte, mas no ciberbullying há sofrimento.”

A escola pode ser o melhor lugar do mundo – mas também o pior. Quando se é criança, estudar pode não ser lá essas coisas, mas o que compensa são os amigos, a diversão, as brincadeiras. Mas e quando os amigos não parecem mais amigos, a diversão vira sofrimento e as brincadeiras só têm graça para os outros? Geralmente, por trás dessa sensação está um problema chamado bullying – palavra da língua inglesa que quer dizer intimidar e tratar com agressividade pessoas mais fracas ou menores. Não há quem não tenha sido autor, vítima ou testemunha de algo assim quando estudante. Nariz, boca, cabelo, voz, dentes, orelhas, pernas, olhos, peso, roupa – qualquer coisa é motivo para menosprezar alguém que não tem como se defender. Brincadeira de criança já foi justificativa para tratamentos cruéis, carregados às vezes para o resto da vida como uma ferida na autoestima. Quando essa intimidação, entretanto, vai além do pátio da escola e se espalha nas redes sociais, as dores e as consequências são amplificadas dramaticamente. Apesar disso, muitas vezes pais, professores e o próprio jovem minimizam a gravidade do problema, baseados na falsa crença de que tudo não passa de brincadeira de criança.

“Para diferenciar brincadeira de agressão, costumamos dizer que na brincadeira todo mundo se diverte, mas no ciberbullying há sofrimento”, afirma Juliana Cunha, coordenadora psicossocial no Brasil da Safernert, uma organização não-governamental internacional dedicada a defender os direitos humanos na internet e parceira do Dialogando. “Ele deve ser intencional e repetitivo”, acrescenta. “São insultos e intimidações que agridem a pessoa pelo o que ela é, seus atributos físicos ou seus traços de personalidade. Isso vai minando a autoestima e a autoimagem, e costuma envolver relações de poder e desigualdades entre os envolvidos”. Esse tipo de violência pode ser coisa de criança, mas é problema de gente grande. “Em nove anos de funcionamento do HelpLine, a SaferNet Brasil ajudou 11.443 pessoas em 24 estados”, acrescenta Juliana, que coordena um canal da Safernet para ajudar crianças e adolescentes em situação de violência na internet. Somente no ano passado, foram 1.862 atendimentos, para diversas modalidades de atitudes violentas (veja os dados).

As 5 principais violações vividas na Internet em 2015

Nudez/Exposição íntima – 322
Ciberbullying/Ofensa – 265
Conteúdos de ódio/violentos – 235
Problemas com dados pessoais – 202
Fraudes/Golpes/E-mails falsos – 89

A questão é tão grave e tem assumido dimensões tão grandes que o governo brasileiro instituiu no ano passado uma lei que cria o Programa de Combate à Intimidação Sistemática em todo o território nacional. A lei específica o que é o bullying e estabelece deveres e responsabilidades das escolas e agremiações como clubes, os lugares onde o problema quase sempre ocorre. O texto, por exemplo, inclui como bullying não só as ações como a omissão, o “isolamento social consciente e premeditado” – algo mais comum entre as garotas do que entre os garotos, segundo pontua a ONG americana NoBullying, que presta o mesmo tipo de ajuda que a Safernet. Segundo a instituição, ignorar um colega, como se ele não existisse é uma importante forma de violência. E o cyberbullying tem crescido tanto lá como em vários países do mundo. O problema sempre começa no ambiente físico na escola e se amplifica na internet, com consequências que podem ser devastadoras.

Para quem acha que, embora grave, os efeitos do bullying são algo transitório e passageiro, que se curam com o tempo, um estudo da Universidade Yale, nos Estados Unidos, sinaliza o contrário. A pesquisa conclui que o bullying frequentemente eleva as tendências suicidas. A ideia de se matar é duas vezes mais comum entre quem já sofreu bullying do que quem nunca passou pelo problema, diz o estudo. Enquanto são crianças, o desempenho escolar cai, as faltas às aulas crescem e aumenta a chance de desistência dos estudos na adolescência. Já os que praticam a violência tendem na adolescência a cometer atos de vandalismo, roubar e brigar. Muitos são presos logo depois dos 20 anos. Outro estudo afirma que crianças que tiveram comportamento agressivo com colegas aos 8 anos de idade tendem a se tornar criminosos violentos antes de chegar aos 30.

Portanto, não se trata apenas de se preocupar com as vítimas, mas também com os agressores. “É importante focar na educação e prevenção”, aconselha Juliana, da Safernet, que faz seis recomendações para combater o problema antes que ele ocorra:

– discutir ética nas relações de amizade;
– fomentar ambientes mais inclusivos;
– a escola deve oferecer espaços para que quem esteja sofrendo possa pedir ajuda
– campanhas de sensibilização;
– incentivar a participação dos adolescentes na busca de soluções, pois eles devem ser atores no debate;
– reconhecer iniciativas e boas práticas sobre o tema e premiar quem faz o bem.

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