Comportamento
05/05/2017 4 min

Déficit de atenção e hiperatividade: o que a tecnologia tem a ver com isso?

A tecnologia não é um problema, mas um desafio – e também parte da solução.

Desde que a internet chegou à casa das pessoas, ela não tem sossego. Não faltam críticas aos males e perigos que ela pode causar. Mas foi assim com grandes inovações, como a televisão e até, quem diria, com o rock’n’roll. Quando se trata de criança, a questão ainda é mais sensível. Um dos temas que têm colocado a tecnologia na berlinda é o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), um distúrbio que costuma aparecer na infância e que pode durar a vida toda. Em poucas palavras, ele se caracteriza por impulsividade, inquietude e desatenção. Pode parecer pouco, mas ela atrapalha e muito o desenvolvimento e a vida social e profissional.

O uso de computadores, tablets e smartphones tem sido apontado como fator que desencadeia o problema, que é de origem genética, deixando pais e mães preocupados e apreensivos. O que a ciência diz sobre isso? Por enquanto, muito pouco. Há estudos que sugerem uma relação entre uma coisa e outra, mas não existe até o momento nenhuma pesquisa com um resultado conclusivo. “O risco de sintomas de TDAH crescem proporcionalmente com o tempo de exposição a uma tela”, afirma a pesquisadora Ilaria Montagni, da Universidade francesa de Bordeaux, líder de uma pesquisa com 4.800 estudantes. No entanto, ela mesma reconhece que é preciso investigar mais. “Embora menos provável, é possível também que seja o TDAH que induza ao tempo prolongado diante de uma tela.”

Essa e várias outras pesquisas semelhantes fazem a mesma ressalva, de que não é possível dizer o que veio primeiro, o ovo ou a galinha, o que é causa e o que é efeito. De certo, há apenas uma correlação. Mas ela preocupa. Nos Estados Unidos, por exemplo, uma em cada dez crianças tem TDAH – dez vezes mais do que há vinte anos, coincidentemente quando a Web se disseminou, e os celulares tornaram-se populares. “Embora não haja dúvidas sobre a origem genética do distúrbio, e sabendo que o DNA não muda em tão pouco tempo, é provável que fatores ambientais estejam contribuindo para esse crescimento”, afirmou em entrevista à revista Time Dimitri Christakis, professor de pediatria da Universidade de Washington, em Seattle.

Os cientistas, no entanto, reconhecem que sabem muito pouco sobre TDAH assim como sobre autismo para fazer qualquer afirmação. Por isso, é preciso muita cautela antes de tirar conclusões e deve-se considerar até que a tecnologia pode ajudar no tratamento. Essa é, pelo menos, a opinião de Stephen Shore. Até os quatro anos de idade, ele não falava. Os médicos diziam que ele tinha “fortes tendências ao autismo”, mas não sabiam o que se passava com aquele garoto. Hoje, Shore é professor de educação especial na Universidade Adelphi, no estado de Nova York, e autor de um livro sobre autismo. “Em vez de tentar lutar contra games, por exemplo, deveríamos usá-los para desenvolver a sociabilização”, diz Shore. Para ele, a tecnologia não é um problema, mas um desafio – e também parte da solução.

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