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13/01/2017 2 min de leitura

E se fôssemos imortais?

Reflexões sobre Black Mirror (episódio San Junipero)

Eos cometeu um grande erro ao fazer um pedido a Zeus. Loucamente apaixonada por Titono, pediu à suprema divindade que concedesse a seu amor a imortalidade. Desejo atendido, o objeto da paixão da deusa do amanhecer na mitologia grega ganhou a imortalidade. Mas ela se esqueceu de pedir algo essencial: a juventude. Titono tornou-se imortal, sim, mas o tempo o transformou num velho cada vez mais velho, em decrepitude total.

A mitologia, que nunca envelhece, mostra na história de Eos que o ser humano nunca desiste da ideia de ser imortal, mas o problema é que a vida é aprisionada em um corpo frágil, que se deteriora muito mais rapidamente do que as ideias que ele encerra. A ciência, porém, está tentando dar uma mão a Eos e dar à vida uma chance sem que ela precise de um corpo, como Titono.

A aclamada série Black Mirror traz em um dos seus desconcertantes episódios uma alternativa tecnológica para consertar o erro de Eos – fazer um upload, cópia, backup, ou como você quiser chamar, do que está guardado em nosso cérebro, e transferir tudo para um computador ou mesmo um androide – um corpo artificial que nunca envelhece nem fica doente. E isso tudo quer dizer tudo mesmo, sua personalidade, seus sentimentos, seu caráter, enfim, seu “eu”. Essa história acontece em “San Junipero”, o quarto episódio da terceira temporada e um dos melhores até aqui. Tem romance e tecnologia. Delírio de ficção científica? Que nada.

A série tirou sua inspiração de pesquisas reais. O projeto mais palpável vem da Rússia, onde o bilionário Dmitry Itskov criou em 2011 o Projeto 2045. “Dentro de 30 anos, garanto que todos nós vamos poder viver para sempre”, prometeu ele recentemente. “Se eu não tivesse 100% de certeza de que isso é possível, nem teria começado”, complementou o empresário, hoje com 35 anos de idade. O projeto de Itskov tem um cronograma e um plano de metas e, por enquanto, vem sendo cumprido, desmentindo o que muitos disseram na época, que ele buscava apenas publicidade e mais dinheiro para sua fortuna.

Itskov, porém, só começou a ser levado a sério quando cientistas acima de qualquer suspeita declararam publicamente que o projeto era difícil, mas viável. Um deles foi o renomado físico inglês Stephen Hawking. “Acredito que o cérebro seja como um programa na mente, o que por sua vez é como um computador. Portanto, teoricamente é possível copiar o cérebro para um computador e, desse modo, criar uma forma de vida após a morte”, disse ele. Outro nome de peso que acredita nisso é o diretor de engenharia do Google, Ray Kurzwell. “Vamos nos tornar cada vez mais não-biológicos até chegarmos ao ponto em que a parte não-biológica predomine e a parte biológica não seja mais importante”, disse ele em um congresso há alguns meses. Ele só não acha que isso vá acontecer em 2045, mas provavelmente lá para 2100.

Não são poucos, no entanto, os cientistas que consideram a hipótese simplesmente um absurdo. Um deles é o brasileiro Miguel Nicolelis, da Universidade Duke, nos Estados Unidos. “Não dá para digitalizar a intuição, não dá para codificar a o senso estético, não dá para digitalizar o amor e o ódio”, afirma o cientista, reconhecido mundialmente por sua pesquisa, que está desenvolvendo um esqueleto externo controlado pela mente para permitir a mobilidade de pessoas com paralisias graves. Segundo ele, a complexidade dinâmica do cérebro, que é de onde vem a condição que nos torna humanos, não pode ser copiada. “Nunca veremos o cérebro humano reduzido a uma mídia digital”, acrescenta.

O psicólogo Robert Epstein, pesquisador-chefe do Instituto Americano de Pesquisa em Comportamento e Tecnologia, na Califórnia, concorda. Ele diz que aqueles que acreditam em copiar e colar a mente numa mídia digital partem de um pressuposto errado e, portanto, todas as conclusões a partir daí são equivocadas. “Você nunca vai achar uma cópia da 5ª Sinfonia de Beethoven em um cérebro, nem palavras, regras gramaticais ou imagens”, diz ele, autor de 15 livros sobre psicologia. Segundo ele, não é assim que o cérebro funciona. Se ele arquivasse informações como um computador, nunca esqueceríamos nada. “Evidentemente, o cérebro não é vazio, mas ele não contém a maioria das coisas que as pessoas acham que ele tem”, acrescenta Epstein, lembrando que ao longo da história da humanidade, a ciência sempre comparou o cérebro com a tecnologia mais avançada da época. Foi assim com a hidráulica, a eletricidade e a indústria. Nosso organismo já com foi comparado a máquinas, redes elétricas ou de fluidos. “A comparação é apenas uma metáfora, nada mais que isso.”

Muito tempo ainda vai passar para saber quem tem razão. Mas a julgar pelo arquétipo da imortalidade embutida na história de Eos e Titono, o ser humano nunca vai desistir de achar um meio de viver para sempre. Se vai conseguir, só o tempo dirá. Mas o certo é que ele vai, literalmente, morrer tentando.

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