Educação
29/11/2016 2 min de leitura

Escrevemos melhor ou pior por causa da tecnologia?

Computadores, tablets e smartphones mudaram a forma de comunicação entre as pessoas. E a nossa escrita, como ficou?

Computadores, tablets e smartphones mudaram a forma de comunicação entre as pessoas. O telefone, quem diria, perdeu utilidade até no celular. As pessoas não falam mais. Teclam. Mandam imagens. Às vezes enviam áudios. Escrevem bastante até, em mensagens muito curtas (nem sempre objetivas), mas frequentemente sem o cuidado de reler o que digitam. Se o corretor não der conta, o outro lado faz um esforço para compreender. Mas cadê a caneta? Cadê o lápis? Cadê o papel? Cadê a borracha? Só na escola – e sabe-se lá por quanto tempo mais. Nem cheque se escreve mais. Basta o dedo indicador para colocar a senha. Não é à toa que essa enorme mudança na escrita tem atraído a atenção de especialistas na tentativa de responder uma pergunta: escrevemos melhor ou pior por causa da tecnologia?

Os estudiosos do tema se dividem. E as respostas dependem do enfoque e do objetivo. O que é mais importante: escrever mais depressa, ter uma boa letra ou ficar motivado? Uma pesquisa do National Literacy Trust – instituição britânica sem fins lucrativos de fomento à alfabetização – concluiu numa ampla pesquisa feita com 3001 estudantes entre 8 e 16 anos que a tecnologia faz mais bem do que mal. Os jovens que possuem um blog (um quarto do total) tendem a gostar mais de escrever do que aqueles que não têm (57% a 40%), o que sugere que o hábito vem antes da tecnologia, que apenas facilita esse prazer. Segundo o estudo, a maioria prefere a tela ao papel, pois é mais fácil corrigir erros (89%) e porque ajuda a expor ideias com mais clareza (76%). No geral, cerca de 60% dos entrevistados acreditam que o computador estimula a criatividade, aumenta a concentração e encoraja a escrever com mais frequência. Isso não é pouca coisa.

Em termos de gênero, a pesquisa mostra que as meninas gostam mais de escrever do que os meninos, seja usando um teclado ou uma caneta. Em termos de idade, o estudo apresenta diferenças nas faixas etárias. Entre 8 e 11 anos, as crianças gostam mais, seja dever de casa ou um poema. Entre 12 aos 13, o interesse despenca, para voltar a subir dos 14 aos 16. O estudo também não encontrou diferenças no interesse pela redação entre classes sociais. Uma conclusão importante é que nove em cada dez estudantes afirmaram que escrever bem é condição indispensável para uma vida bem-sucedida. Para os pesquisadores, o número é preocupante. Eles esperavam que nenhum estudante dissesse o contrário. “Consideramos fundamental que o currículo das escolas utilize métodos que motivem o estudante a gostar de escrever”, diz Christina Clarke, uma das responsáveis pela pesquisa. “É preciso demonstrar que escrever é mais do que uma tarefa compulsória, que é uma habilidade essencial para a vida.”

Mas há quem discorde. Sabine Wollscheid, pesquisadora do Instituto Nórdico para Estudos em Inovação e Educação, na Noruega, é uma dessas pessoas. Segundo ela, estudos mostram que a memorização da criança é muito maior se aprendem a escrever a mão. Ela dá um exemplo: “Quando um estudante escreve variações de uma letra, isso desencadeia conexões dos processos motores e cognitivos do cérebro”, diz Sabine. “Existe uma correlação positiva entre a memória e conexões da rede neural. Quanto mais links, melhor a memória”, acrescenta. “Por outro lado, se você recebe uma letra já pronta e pré-formatada, as conexões não são iguais.”

Os nórdicos são grandes entusiastas da tecnologia e têm várias pesquisas. Outra delas, feita na Suécia pela pedagoga Annika Angelii Genlott, acompanhou a alfabetização de cinco mil crianças com o uso de tablets apenas. Em comparação com estudantes que aprenderam com lápis e papel, os primeiros se saíram muito melhor. Segundo a pesquisadora, ao final de um ano os textos eram mais longos, tinham uma linha de raciocínio mais clara e um fluxo mais lógico. E o mais surpreendente: eles escreviam e liam como crianças do terceiro ano.

Assusta, não é?

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