Comportamento
02/08/2017 4 min

Estranhos x Conhecidos

A internet mudou tudo e tão depressa, que é possível “conhecer” dezenas de pessoas – os chamados “estranhos” – todos os dias.

Houve um tempo, nem tão distante assim, em que as pessoas conheciam gente e faziam amizade apenas no mundo material: nas ruas, nas festas, no trabalho, na escola. Em um ambiente bem definido, ninguém era exatamente um desconhecido. A internet, porém, mudou tudo e tão depressa que é possível “conhecer” dezenas de pessoas – os chamados “estranhos” – todos os dias. E é possível também se relacionar com centenas, milhares de “conhecidos” ao mesmo tempo. Tudo isso sem se encontrar com elas pessoalmente, nem com os conhecidos e nem com os estranhos.

Os pais se apavoram com a exposição de seus filhos a tanta gente de quem não se sabe nada – a não ser o que elas mesmas contam. Mas será que esse é o problema? A resposta é não, pelo menos para os jovens que passam várias horas diariamente no mundo digital. Pelo contrário. O problema, para eles, pode ser justamente os amigos. É isso o que mostra o Juventude Conectada – um amplo estudo da Fundação Telefônica, realizado em parceria com o Ibope Inteligência e com o Instituto Paulo Montenegro.

“A gente vê que a maior preocupação dos pais é ‘não entre em contato com estranhos’, ou ‘não adicione estranhos’. Curiosamente quando a gente conversa com os jovens o incômodo maior não é com estranhos, mas com colegas, amigos e amigos dos amigos”, afirma a socióloga Inês Vitorino, professora da Universidade Federal do Ceará. Os constrangimentos públicos partem, na maior parte das vezes, das pessoas mais próximas, não dos distantes. Por outro lado, a percepção dos jovens pesquisados sobre os chamados estranhos é positiva – e diferente da geração que não cresceu na era digital.

“A internet reconfigurou as fronteiras de sociabilidade”, diz o estudo. “Relações que antes se limitavam à família, à escola e aos vizinhos hoje se expandem, ajudando a formar novos círculos de relacionamento, que derrubam inclusive barreiras geográficas”. A pesquisa afirma ainda que os temas de interesse comum entre eles “passam a ser gatilhos de aproximação, aglutinando pessoas que nem sempre estão fisicamente próximas ou já se conheciam de algum lugar”. Em outras palavras, é como se não houvesse diferença entre as amizades on e off-lines. Para eles, um ambiente é extensão do outro.

“Uma pesquisa que a gente fez há um tempo, inclusive a parte quantitativa foi feita pelo Ibope, mostrou que 28% dos adolescentes e jovens já tinham encontrado presencialmente pessoas que só conheciam na internet. Esse é um número muito alto e, quando a gente foi checar, é isso mesmo o que está acontecendo”, afirma Mario Volpi, educador e especialista em políticas públicas do Unicef. “Hoje em dia, vejo as pessoas se expressando muito mais pelas redes e conseguindo tratar de coisas que às vezes não são abordadas com a família ou com amigos próximos, como o tema da sexualidade.”

Essa tendência sinaliza uma mudança de paradigmas nos conceitos de amizade e relacionamento interpessoal, que contradizem o temor vigente até alguns anos atrás com relação à internet, vista por muitos como um bicho-papão. “ Em geral, são pessoas menos conectadas e envolvidas com internet que abraçam facilmente a ideia de que a internet é um risco, que está cheia de pedófilos querendo pegar seu filho”, compara Inês Vitorino. “É um pouco aquela visão dos anos 80 e 90 de que todos os males vêm da TV, agora todos os males vêm da internet”. Nada mais longe da realidade.

Fonte: Pesquisa Juventude Conectada, da Fundação Telefônica.

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