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06/12/2016 2 min de leitura

Her, inteligência artificial e amor

Reflexões sobre o amor em tempos de inteligência artificial

Se existe uma prova irrefutável de que o cinema é uma arte (e ainda há quem duvide), é a sua capacidade de despertar em nós – assim como a música ou a pintura – sentimentos que tínhamos e não sabíamos.  Os filmes nos mostram que o ser humano tem um fascínio emocional, irracional, por algo que, em tese, deveria ser tratado com a frieza do metal. Diante da tela, percebemos que temos um sonho de que as máquinas se humanizem. Não falamos disso no dia a dia, mas até intimamente podemos torcer para que aconteça. Um filme que leva esse devaneio ao extremo é “Ela” (“Her”, 2013). Nele, Theodore Twombly (Joaquin Phoenix) estabelece um relacionamento afetivo com um software de voz feminina (Scarlett Johansson). De um lado, está um homem deprimido com seu divórcio e se sentindo só. De outro, um sistema operacional com inteligência artificial que aprende rapidamente e que está sempre disponível para conversar.

O que torna “Ela” diferente de outras produções é que não há uma forma humana no relacionamento. É uma voz sem rosto. É, por assim dizer, o amor ideal, aquele em que se apaixona pelo outro pelo que ele é, não pelo que se vê. O filme questiona se não estaríamos carentes e distantes de outras pessoas, mesmo com toda a conectividade. Mas ao mesmo tempo faz refletir sobre como a relação entre o ser humano e as máquinas está se tornando cada vez mais orgânica, cada vez mais natural. Foi com essa naturalidade, por exemplo, que milhares de pessoas assistiram online ao casamento de um jovem japonês com Nene Anegasaki, uma personagem do game Love Plus, da Nintendo. Ele tinha 27 anos quando realizou a cerimônia, em 2009, e disse que não sentia falta de uma namorada humana. Para ele, Nene é melhor do que qualquer mulher. “Ela não fica brava se eu demoro para falar com ela”, afirmou. “Bem, ela até fica brava, mas passa logo.”

“A juventude japonesa de hoje em dia não consegue expressar seus reais sentimentos no mundo real”, analisa Hiroshi Ashizaki, especialista em dependência de games e internet. “Eles só conseguem fazer isso no mundo virtual. É uma realidade reversa”, acrescenta. Mas por que essa atração humana pelos androides e robôs? “Porque somos mortais”, resume o britânico Alex Garland, escritor, cineasta e roteirista, que ficou mais conhecido por outro filme que aborda o tema, “Ex-Machina”. “Até pessoas que acreditam na vida após a morte lamentam que não vão continuar aqui.” Para ele, o ser humano vê na criação do robô com inteligência artificial algo como a paternidade de um ser que não precisa morrer, que vai durar muito além dele.

Mas outro questionamento se desdobra desse. Ser pai de uma criatura superior, imortal e infalível não é um risco? Quase meio século atrás, o diretor Stanley Kubrick fez um filme – “2001: Odisseia no Espaço” – que deixava uma incômoda pergunta: a criatura vai dominar o criador? É o que acontece com o computador da nave espacial do filme – capaz de, com naturalidade, assassinar membros da tripulação com base em decisões lógicas. Exagero da ficção científica? Para um dos maiores físicos teóricos da atualidade, o britânico Stephen Hawking, não. “O total desenvolvimento da inteligência artificial pode determinar o fim da raça humana”, disse ele à rede de televisão BBC. Hawking acredita que o ser humano caminha para criar algo que ultrapasse o ser humano. “A inteligência artificial poderia decolar por conta própria e se reprogramar numa velocidade cada vez maior”, advertiu. “Limitados pela lenta evolução biológica, nós não teríamos como competir e seríamos substituídos.”

Assustador?

Mais do que você imagina. De acordo a Lei de Moore, a capacidade de processamento dos chips dobra a cada dois anos. Se continuar assim, os computadores não vão mais precisar de nós entre 2030 e 2050. Falta pouco.

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