Comportamento
15/11/2016 4 min de leitura

Os superconectados

A internet é uma maravilha, todo mundo sabe. Com ela é possível fazer praticamente tudo sem sair de casa. Dá, por exemplo, para organizar uma festa de casamento sem sair do lugar – da encomenda de flores e confecção de convites à contratação de músicos e de um serviço de buffet. Dá também para organizar…

A internet é uma maravilha, todo mundo sabe. Com ela é possível fazer praticamente tudo sem sair de casa. Dá, por exemplo, para organizar uma festa de casamento sem sair do lugar – da encomenda de flores e confecção de convites à contratação de músicos e de um serviço de buffet. Dá também para organizar toda a viagem de lua de mel, incluindo reservas de passagens, hotel e passeios. É possível até conhecer outra pessoa e começar uma crise no casamento sem sair da frente do computador. Nesse caso, dá para encontrar um bom terapeuta de casais ou até um advogado para cuidar do divórcio. A web permite tanta coisa que de solução ela pode se transformar em um problema. Em excesso, até água pode fazer mal. O desafio, porém, é identificar até onde vai o uso consciente e equilibrado e onde começa o exagero e até o vício.

Uma pesquisa da eMarketer feita nos Estados Unidos e divulgada no ano passado afirma que as pessoas passam uma média de 5,5 horas por dia conectados, metade desse tempo por meio de um smartphone. Mas a intensidade varia de acordo com o grupo social. Em outro estudo, feito com mulheres universitárias, a média diária chega a 10 horas. Já uma pesquisa feita na Grã-Bretanha com jovens de 18 a 24 anos mostra que a primeira coisa que 75% dos entrevistados fazem ao acordar é checar o celular. Em média, essas pessoas mexem no smartphone a cada 4,3 minutos – o que dá mais de impressionantes 200 vezes ao dia. Mas como em toda compulsão, a pessoa não reconhece o uso excessivo em si mesmo, apenas nos outros. É o que confirma um levantamento conduzido em 2015 pelo Instituto Gallup nos Estados Unidos: 61% dos entrevistados afirmam usar o smartphone menos que outras pessoas que eles conhecem.

Esse uso tão intenso significa vício? Não necessariamente. Há muita controvérsia entre os profissionais da saúde sobre a questão. Muitos insistem que é preciso diferenciar uso intenso de uso compulsivo, que é quando a pessoa se sente física e emocionalmente mal se não estiver on-line. Vários afirmam que é difícil diferenciar se a dependência do jogo ou da pornografia ou da ferramenta de acesso a ela, no caso a internet. Também é preciso levar em conta, segundo alguns estudiosos, se a pessoa com esse tipo de compulsão tem problemas anteriores, canalizados na internet. “Pessoas com alguma dificuldade de relacionamento social, fóbicas, tímidas demais ou com quadros depressivos, em contato com o computador, acabam abusando de seu uso o que acarreta prejuízos em sua vida social, financeira e até profissional”, afirma o médico André Malbergier, professor do Departamento de Psiquiatria na Faculdade de Medicina da USP e coordenador do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas. “Muitos perdem o emprego, porque se aproveitam de que o trabalho requer o uso do computador para despender tempo com jogos, e-mails ou pornografia.”

Para a psicóloga e socióloga americana Sherry Turkle o problema é maior do que parece. Professora do MIT, o mais importante centro de estudos de tecnologia do mundo, ela está longe de ser uma pessoa que não gosta de tecnologia. Mas é justamente a sua experiência nessa área que lhe dá autoridade para afirmar que a nova revolução nas comunicações propiciada pela internet está degradando as relações humanas. Segundo ela, o problema está em todos os tipos de relação, como marido-mulher e pais-filhos. A preocupação maior da especialista é com os jovens, que já nasceram nesse ambiente digital. Ela afirma que as crianças e adolescentes não estão aprendendo a ficar sozinhos e, por isso, estão perdendo a capacidade de ter empatia, até de fazer contato visual com outras pessoas. “É estar só que ensina as pessoas a procurar outras pessoas e a vê-las como seres independentes e separadas”, diz ela, autora de uma pesquisa que mostra uma queda de 40% na empatia entre estudantes universitários nos últimos vinte anos.

E se você está começando a pensar se não estaria usando demais a internet em detrimento dos contatos pessoais, que tal fazer um teste? O Instituto Delete, uma empresa que desde 2008 pesquisa o impacto da tecnologia no comportamento humano, criou o seguinte questionário para você mesmo ver se anda abusando ou não da internet no dia a dia.

Faça o teste:

Para avaliar o seu nível de dependência, atribua à resposta a cada pergunta o valor adequado segundo a escala abaixo.

Vá anotando à parte os números enquanto responde, pois você vai precisar somá-los no final.

0 – não se aplica
1 – raramente
2 – ocasionalmente
3 – frequentemente
4 – quase sempre
5 – sempre

PERGUNTA

1. Está ligado à internet mais tempo do que pretendia?
2. Negligencia tarefas domésticas para passar mais tempo conectado?
3. Prefere a excitação da internet à intimidade com o seu parceiro?
4. Estabelece novas relações com outros usuários na internet?
5. As pessoas próximas de você se queixam sobre o tempo que passa conectado?
6. Os seus afazeres são alterados devido ao tempo que passa conectado?
7. Verifica o e-mail antes de qualquer outra coisa que precise fazer?
8. O seu desempenho ou produtividade no trabalho sofre devido à internet?
9. Tem uma atitude defensiva quando alguém lhe pergunta o que está fazendo na internet?
10. Bloqueia os pensamentos desagradáveis sobre a sua vida com pensamentos reconfortantes da internet?
11. Quando está off-line fica com vontade de se conectar novamente?
12. Tem receio de que a vida sem internet seja chata, vazia e sem alegria?
13. Grita ou se irrita se alguém incomoda enquanto está na internet?
14. Perde o sono quando fica até muito tarde na internet?
15. Fica preocupado com a internet quando não está conectado ou fica imaginando o que poderia estar fazendo agora na internet?
16. Diz a si mesmo “só mais um pouquinho” quando está na internet?
17. Tenta reduzir a quantidade de tempo que passa na internet e não consegue?
18. Tenta esconder a quantidade de tempo que passou na internet?
19. Escolhe passar mais tempo na internet em vez de sair com outras pessoas?
20. Se sente tristeza, instabilidade ou nervosismo quando não está na internet e tudo isso desaparece quando volta a estar conectado?

Depois de ter respondido a todas as questões, some os números que selecionou para cada resposta para obter uma pontuação final. Quanto mais alta for a pontuação, maior é o nível de dependência e os problemas que o uso da Internet provoca.

RESULTADOS

20-49 pontos: Você é um utilizador médio. Talvez navegue na internet um pouco além da conta, mas tem controle sobre a sua utilização.

50-79 pontos: Você começa a ter problemas ocasionais ou frequentes devido ao uso da internet. Deve considerar o impacto na sua vida por ficar ligado conectado com frequência.

80-100 pontos: A utilização da internet está causando problemas significativos na sua vida. Deve avaliar as consequências desses impactos e aprender a lidar com a web de modo mais saudável e produtivo.

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