Comportamento
28/06/2017 5 min

Representatividade TRANS

De passo a passo, a caminho de uma sociedade de igualdade

Muito da constituição da identidade das pessoas passa pelas narrativas que escutamos ao longo da vida. Como bem disse a escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie em sua TED Talk: “Histórias importam. Muitas histórias importam. Histórias têm sido usadas para expropriar e tornar maligno. Mas histórias podem também ser usadas para capacitar e humanizar. Histórias podem destruir a dignidade de um povo, mas histórias também podem reparar essa dignidade perdida.” É ouvindo histórias que aprendemos, desenvolvemos empatia e que criamos estratégias para imaginar as nossas próprias histórias. No entanto, ao olhar para as produções literárias, cinematográficas, televisivas e até jornalísticas, percebemos que por muito tempo um mesmo tipo de história, sobre um mesmo tipo de pessoa, dominou a narrativa contada e isso ajudou a construir padrões de beleza e comportamento, bem como excluir ou discriminar os demais.

É por isso que muito tem se falado sobre representatividade – sobre dar lugar para que as histórias dos mais diversos tipos, sobre as mais diversas pessoas – de modo a dar um passo a mais em direção à desconstrução desses padrões tão rígidos e discriminatórios. Porque contar histórias diferentes é o primeiro passo para o diálogo e para a informação, tão importantes para extinguir as diversas naturezas do preconceito.

Pode-se falar sobre representatividade de qualquer minoria – mulheres, negros, gays etc –, mas aqui a ideia é se debruçar um pouco sobre as histórias contadas sobre as pessoas trans. Primeiro é importante definir que pessoas trans são aquelas cuja “identidade não segue o gênero que lhe foi atribuído em seu nascimento, de acordo com o sexo biológico. Elas podem ser homens, mulheres ou não-binários e identificar-se como homens transexuais, mulheres transexuais, travestis ou nenhum desses.”, conforme conceito da ONU.

Contar a história dessas pessoas é importante para desconstruir estereótipos e dar visibilidade para suas lutas e direitos. “A partir do momento que alguém nos representa de fato, que vamos conquistando mais espaços na sociedade, mostrando que não somos invisíveis e, que sim, nós existimos, isso ajuda a desconstruir todo um estereótipo de uma sociedade engessada.”, afirma Pedro Fumiya, 31 anos.

A boa notícia é que existem cada vez mais pessoas trans conquistando seu espaço, seja na internet, na TV, na moda ou no cinema. O Youtube é um ótimo exemplo: as pessoas compartilham a vida em seus canais, o que inclui o processo de transição e a questão de gênero, mas vai bem além disso, explorando outros aspectos do cotidiano e dos interesses pessoais delas. Gigi Gorgeus é um desses casos de sucesso. Com mais de 2,5 milhões de inscritos no canal que fundou em 2008, ela mostrou para o mundo todo o seu processo de revelação e transição, e hoje usa essa plataforma para discutir questões trans, encorajar sua comunidade e falar sobre todas as outras coisas da sua vida pessoal e profissional. Sua história impactante também é contada no documentário This is everything, que foi selecionado para o Festival de Sundance deste ano. Já o youtuber Alex Bertie fala bastante sobre sua transição, que ainda está em andamento, mas também discute temas como trabalho, livros, tatuagens e até o próprio gatinho. As mudanças de aparência e voz são notáveis em questão de poucos vídeos, mas é realmente emocionante comparar os primeiros vídeos com os mais recentes.

O universo da TV também está evoluindo, passo a passo. Segundo uma pesquisa realizada pela ONG estadunidense GLAAD sobre representatividade na televisão na temporada 2016-17, personagens transgêneros estarão presentes tanto na TV aberta, a cabo e em produções de streaming. Outros resultados interessantes: de todos os personagens LGBT, apenas 6% são trans, sendo 12 mulheres e apenas 4 homens – com o streaming liderando esses números. Laverne Cox dá vida à Sophia Surset em Orange is the new black e nos mostra um pouco do que é a realidade de uma mulher trans em um presídio feminino – a eventual privação de hormônios, o preconceito, mas também explora questões como maternidade, vaidade e verdadeiras amizades. Além de ter um papel interessante na série, a atriz também se tornou porta-voz da comunidade, sempre se posicionando quando o assunto é ligado à plataforma trans. Apesar de termos bem menos homens trans do que mulheres nesse cenário, The OA nos trouxe Buck Vu, um garoto trans de apenas 14 anos, interpretado pelo ator Ian Alexander. O papel é relativamente pequeno e a pauta trans é tratada de maneira bem sutil, porém é marcante por ser um espaço no elenco principal e por ser um personagem asiático.

A moda também tem sido palco para avanços interessantes: para citar uma notícia bem recente, a modelo brasileira Valentina Sampaio esteve na capa da Vogue Paris de março. Não é a primeira vez que uma modelo trans aparece na capa de uma revista, mas a trajetória da modelo é impressionante – ela já apareceu na Vogue Brasil e é também embaixadora da marca L’Oréal. No Brasil, o estilista Ronaldo Fraga fez um desfile somente com modelos trans no 42º São Paulo Fashion Week, em outubro de 2016, usando a sua passarela para mandar uma mensagem de igualdade.

O progresso na representatividade de pessoas trans é inegável, porém tem desafios a serem superados. “O problema da representação talvez seja mais a falta de informação. Conhecer a realidade que pessoas trans vivem – seja no simples ato de frequentar um banheiro público ou a busca de inserção no mercado de trabalho, etc – é essencial para criar conteúdo que fazem as pessoas refletirem sobre a existência da diversidade e respeitá-la.”, explica Pedro. Para além do campo da representação, é importante então nós, como sociedade, batalharmos para construir espaços seguros para que pessoas trans contem suas histórias – seja na tv, na passarela, na direção de um filme, no elenco de produções, mas também na rua, no mercado de trabalho, nas lideranças, na política, em todos os lugares.

Panorama da realidade trans no Brasil e no mundo

Os esforços para dar visibilidade para a pauta trans é relevante porque a transfobia é uma realidade dura. Segundo o relatório mais recente da ONG Transgender Europe, mais de 2 mil pessoas trans foram assassinadas nos últimos 8 anos: mais de 1,7 mil aconteceram na América Latina e 900 aconteceram no Brasil, o país que mais matou pessoas trans no mundo no último ano. Aqui a expectativa de vida para essa população é de 35 anos e 90% das travestis e trans estão envolvidas na prostituição, segundo os números da ANTRA – Associação Nacional de Travestis e Transexuais. Para entender o panorama global, a Transgender Europe também tem um projeto interessante de mapeamento de questões legais e sociais de pessoas trans pelo mundo. É um mapa interativo, com conteúdo sobre violência, saúde e legislação.

É sempre importante frisar que a chave para o combate de violências como essas é a denúncia. No Brasil, existem algumas delegacias especializadas para atender vítimas de transfobia (veja aqui onde encontrá-las), mas em todo caso é sempre possível recorrer à Polícia Militar por meio do 190 ou ao Departamento de Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos pelo Disque 100.

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